sábado, 12 de setembro de 2009

Correndo pela vida Por Tiago Bacelar




Há 12 anos, o Irã elegia Mohammad Khatami como seu presidente, marcando uma importante virada política, tentando quebrar o isolamento do país e melhorar a imagem internacional. É neste contexto histórico que o iraniano Majid Majidi roteirizou e dirigiu, em 1997, os Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye Aseman no original), uma belíssima trama de dois irmãos tentando sobreviver em meio à pobreza nas ruas tortuosas de Teerã.
Por se tratar de um filme que retrata problemas sociais, Majid Majidi teve enormes dificuldades de captar recursos para sua produção. Depois de diversas agências governamentais rejeitarem patrocinar Filhos do Paraíso, o Institute for the Intellectual Development of Children and Young Adults aceitou bancar a obra do diretor iraniano, que foi concluída em 70 dias. Em 1999, conseguiu uma indicação como Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Perdeu para a produção italiana A Vida é Bela, de Roberto Benigni.
O filme retrata a história de Ali Mandegar (Amir Farrokh Hashemian) em busca dos sapatos da irmã Zahra (Bahare Seddiqi). Seu pai Karim (Mohammad Amir Naji) faz cubos de açúcar para serem servidos no chá dentro de templos mulçumanos e sua mãe (Fereshte Sarabandi) está doente. Em meio a esse sofrimento e tentando evitar uma bronca dos pais pela perda dos sapatos, os irmãos fazem um pacto para dividirem os tênis de Ali para poderem freqüentar a escola, que é obrigatória no Irã para crianças de seis a dez anos.
O elo fraternal de Ali e Zahra passa a ser desenvolvido por aquele par de tênis. A montagem genial de Hassan Hassandust reflete bem a proposta narrativa do filme de mudar o ritmo dramático de acordo com a velocidade lenta ou acelerada dos pés da irmã e do irmão. Correndo pela vida, Ali e Zahra retratam o espírito do cinema iraniano contemporâneo de mostrar ao mundo produções poéticas, momentos líricos e belas fotografias num mundo diegético parecido com a Teerã real.
Em os Filhos do Paraíso, a ingenuidade infantil e a natureza chocam-se com o forte contraste social de onde vivem com o bairro rico dos arranha-céus e grandes mansões, que seu pai tenta emprego como jardineiro. Na fotografia de Parviz Malekzaade, podemos perceber diversos elementos da cultura iraniana nos cenários, nos figurinos (burcas), nos textos gráficos e nos córregos de água, que representam a jornada dos irmãos em busca dos sapatos perdidos e da sobrevivência numa vida tão sofrível e árdua. A corrida para conseguir um par de sapatos é mostrada por Malekzaade de forma extremamente lenta, praticamente foto a foto, realçando o drama do garoto Ali em cumprir a promessa que fez a Zahra.
O final do filme é significante em muitos aspectos. Ao mostrar o pai chegando em casa com novos sapatos em sua bicicleta, o espectador vê como era tola a preocupação dos irmãos em contar a verdade. Percebendo Ali triste por não ganhar na corrida os sapatos, a irmã o abandona, indo de encontro ao irmão caçula, depois de ouvir o bebê chorando.
Fica evidente a função do calçado como o único e frágil elo entre Zahra e o irmão. Ali termina só. Seu tênis fica destroçado. Finalmente, seus pés que correram tanto por manter sua ligação fraternal com a irmã podem finalmente repousar e encontrar paz na água com o consolo dos peixinhos. Filhos do Paraíso nos mostra como as novas gerações são importantes na construção de um mundo novo, aonde só correr não basta para ter um final feliz.

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